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Rajão Foto: Rui Camacho |
De entre todos os instrumentos utilizados nas práticas musicais madeirenses será, provavelmente, o mais genuinamente regional na sua origem e, certamente, aquele que apresenta características mais arcaicas passíveis de serem associadas historicamente à região, pelo menos, desde o século XVII.
Tem bastante influência nas zonas rurais da Madeira, derivada da sua facilidade em acompanhar diversos ritmos musicais.
A sua afinação reentrante, em que a terceira corda é a mais grave, é típica da viola de mão seiscentista. As suas características são muito semelhantes à “viola requintada” utilizada, desde finais do século XVI.
Carlos Santos, no seu livro Tocares e Cantares da Ilha, refere que o "Rajão", é, “ instrumento acompanhador por excelência e desempenha ótimo logar nas orquestras regionais", e por sua vez, é "o companheiro de folguedos indispensável do campónio, pela facilidade com que acompanha qualquer ritmo.” (Santos: 19)
O “Rajão”, de acordo com o sistema de classificação de Hornbostel-Sachs, caracteriza-se como sendo um cordofone, mais especificamente, um cordofone composto de cordas beliscadas, muito semelhante à viola dedilhada.
Até à bem pouco tempo, tratava-se de um instrumento que apenas era utilizado sobretudo como acompanhador do canto e da dança no folclore da região e tal como o braguinha também havia quem fizesse do seu uso, o estilo ponteado. Os tocadores mais experientes apresentavam uma forma de execução muito característica, vulgarmente designado por “tocar de rasgado”.
Este instrumento foi levado para o Havai, em tempos idos, pelos madeirenses que emigraram para essas paragens, onde lhe terá sido atribuída a designação de ukulele.
Terá também sido exportado, em grandes quantidades, para outros locais, nomeadamente para a região Norte de África, por volta do ano de 1897.
O rajão, tal se apresenta nos nossos dias, arma com cinco cordas simples mas, divergindo das violas de mão, utiliza um tipo de afinação “reentrante”. Este tipo de afinação caracteriza-se por ter a terceira corda (Dó) como sendo a mais grave contrariamente aos outros instrumentos montados com cinco cordas, em que a quinta costuma ser a mais grave. A toeira (ou corda que dá o tom de afinação ao instrumento) é, neste instrumento, a quarta corda (Sol).
As cordas do rajão dispõem-se na seguinte ordem (de baixo para cima e/ou do agudo para o grave):
• 1.ª - Lá (carinho Nº 10)
• 2.ª - Mi (carrinho Nº 4)
• 3.ª - Dó (bordão Nº 41 – Si da guitarra portuguesa)
• 4.ª - Sol (carrinho Nº 9 – toeira)
• 5.ª - Ré (bordão Nº 41 – Si da guitarra portuguesa)
Uma outra sonoridade, mais próxima do seu primórdio, é conseguida através do uso de cordas de fluorocarbono, (cordas de ukulele soprano), na seguinte ordem (de baixo para cima e/ou do agudo para o grave):
• 1.ª - Lá (1.ª corda do encordoamento de ukulele Soprano)• 2.ª - Mi (2.ª corda do encordoamento de ukulele Soprano)
• 3.ª - Dó (3.ª corda do encordoamento de ukulele Soprano)
• 4.ª - Sol (4.ª corda do encordoamento de ukulele Soprano)
• 5.ª - Ré (3.ª corda do encordoamento de ukulele Soprano)
Actualmente, o "Rajão", já não fica apenas pelo acompanhamento mas também faz melodias, assim como, melodias com acompanhamento. Alguns músicos, como Vítor Sardinha, Roberto Moniz, Roberto Moritz, Guilherme Órfão e Pedro Gonçalves, têm-se aplicado em novas composições, adaptações e interpretações. Na área da interpretação neste instrumento conta-se também com jovens músicos tais como: Tiago Lopes; Afonso Costa; Lara Nunes, entre outras jovens promessas.
O interesse por este instrumento está a crescer a passos largos e são cada vez mais os praticantes, fruto do trabalho de divulgação que têm acontecido pelos grupos que o usam na nossa região, mais concretamente: Xarabanda, Orquestra de Ponteado, Si Que Brade, O Machetinho, entre outros.
Nos dias que correm, o ensino deste instrumento acontece nos mais variados grupos e associações da nossa região, mas é no Conservatório Escola das Artes e na Associação Xarabanda, com o professor Roberto Moniz, bem como na SRERH - DSEAM, com o professor Roberto Moritz, que se faz uma aprendizagem mais significativa, através da abordagem de teoria musical, novas técnicas (equiparadas à viola dedilhada) e novo repertório.
Bibliografia
MORAIS, Manuel. Notas sobre os instrumentos populares Modernos; Xarabanda Revista nº12, 1997, pág. 11,12 e 13.
SANTOS, Carlos M. Tocares e cantares da ilha: estudo do folclore da Madeira. Funchal, 1937.
SANTOS, Carlos M. Trovas e bailados da ilha: estudo do folclore da Madeira. Funchal, 1942.