sábado, 3 de novembro de 2012

A Viola d'Arame

A viola de arame é um cordofone descendente das violas portuguesas (viola beiroa, viola campaniça, viola braguesa, viola amarantina, viola toeira).

Viola d'Arame
Foto: Rui Camacho
Tem, no entanto, nas suas irmãs Açorianas (viola da terra - 12 cordas, ilha de São Miguel; viola da terceira - 15 cordas e Viola da Terceira -18 cordas) as suas parentes mais próximas, sendo todas estas conhecidas por violas de arame. Diferencia-se, porém, das demais, por ter escala sobreposta ao tampo e não rasa.
O seu nome advém do facto de, na sua armação (encordoamento), as cordas serem construídas de arame, (vulgarmente fios de latão).


Esta viola era, outrora, muito usada pelos foliões populares em festas e folguedos, no acompanhamento do charamba (cantiga de raiz popular da Madeira e Porto Santo). No entanto, e com o andar dos tempos, os tocadores mais experimentados e com gosto pela exploração completa deste cordofone de som maravilhoso e harmónico, conclui-se que presta-se também para acompanhar outros tipos de cantigas tão populares quanto vulgares na Região Autónoma da Madeira.






A forma de tocar este instrumento é a mesma utilizada para tocar o rajão e o braguinha, podendo ser tocada de ponteado ou de rasgado,  ficando tal tarefa ao critério do tocador.
Tocador de Viola d'Arame - Charamba (Porto Santo)
Foto: Rui Camacho


Um dos géneros que sempre dependeu do seu uso e ainda hoje a tem como acompanhante por excelência é o Charamba ou Xaramba.
" Teoria" - Grande tocador de Viola d'Arame - Porto da Cruz

Charamba é um género de improviso tanto no canto como no acompanhamento pela Viola d'Arame, em que cada executante deste instrumento, pode dar um ar da sua graça de acordo com as suas capacidades, nomeadamente nos instrumentais que separam os versos ou nos interlúdios entre cantadores.
Este género musical madeirense, serviu de base a muitas das chamadas cantigas de trabalho (apanha do trigo e da erva e carga).
Existem três estilos de Charamba:
- "Charamba Clássico" - o mais antigo (ritmo muito livre);
- "Charamba dos Velhos" - com andamento lento (é o preferido das pessoas mais idosas);
- "Charamba pelo Meio" - tem um andamento mais vivo (é o preferido pelos jovens)

"Charamba dos Velhos" - Referta (Porto da Cruz)
Foto: Rui Camacho


No Porto Santo quando se vai a baile ou a cantoria, há mesmo uma expressão que se diz: “Hoje há viola”!
Tocador de Viola d'Arame
Charamba (improvisadores do Funchal, Porto Santo e Santana)
Carreiras - Funchal
Foto: Rui Camacho



Afinação e encordoamento:


A viola de arame encordoa com 9 cordas (de baixo para cima e/ou do agudo para o grave), conforme abaixo enumerado:
Ré (carrinho - Nº 10 ou 9 - um par de cordas afinadas em uníssono).
Si (carrinho - Nº 4 corda de aço - individual).
Sol (toeira carrinho - Nº 4 - um par de cordas de latão afinadas em uníssono).
Ré (um par de cordas, sendo a primeira um bordão - corda si da guitarra de fado nº 41 e a segunda um corda de aço fino carrinho nº 10).
Sol (um par de cordas sendo a primeira um bordão n.º 73 ou sol da viola francesa e a segunda uma corda de latão nº 4).
Atualmente, há quem utilize outras cordas de marcas mais conceituadas no sentido de conseguir uma melhor sonoridade e afinação.

A divulgação da viola de arame, através da emigração de colonos madeirenses influenciou, também, outro instrumento no Brasil, a viola caipira, que para além das características físicas e do número de cordas nas suas afinações, adotou igualmente a da viola de arame.

Algumas “Escolas de Viola d’Arame” destacam-se das demais, pelo facto de se contemplar a “teoria musical” e a “leitura na pauta”. Destas destacam-se a Associação Musical e Cultural Xarabanda e o Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira através do Professor Roberto Moniz.

NOTA:
Na Madeira, temos apenas um construtor de Violas d’Arame, o Mestre Carlos Jorge Pereira Rodrigues, que tem a sua Oficina na Rua dos Frias N.º- 2 A, 9000, Funchal.